Meu amor,
Espero que esboces um sorriso quando começares a ler esta carta (quem me dera ver-te neste momento). E eu, que gosto de ler sempre as últimas páginas dos livros, espero que termines esta carta com o mesmo sorriso. Comecei por escrever a última linha desta carta, antes de a começar a escrever. É o que sinto na última linha que me fez escrevê-la.
Espero que saibas que, apesar de a receberes quando já não existirei na tua vida, eu vou sentir que a estás a ler. Não precisas de me dizer… incrivelmente, e inexplicavelmente, eu acho que sinto o que tu sentes, quando o sentes. E é isso que quero que saibas, nesta carta.
Posso estar enganada em tudo o que te digo aqui. Posso um dia acordar e já não sentir nada do que tu sentes, nem ver nada como tu vês (não ponho as mãos no fogo por mim, reinvento-me todos os dias para continuar a existir serenamente…).
Nestes últimos meses, posso dizer, com toda a certeza que a vida me dá, que senti tudo o que tu sentiste, que vi tudo com os mesmos olhos que tu, que o sabor de tudo foi igual para os dois, e que até a nossa temperatura foi sempre a mesma (e quando não o foi, bastava-me tocar-te para a equilibrarmos). Vemos a beleza das coisas com a mesma intensidade.
Tudo o que nos atraiu durante este tempo, foi o que nos manteve afastados até ao primeiro olá, e o que nos afasta agora, depois deste adeus.
O tempo cura tudo. No nosso caso parece que foi o nosso maior inimigo… mas quem sabe, vai ser o nosso maior amigo para que nos esqueçamos.
Ainda não sei como vou fazer isso… mas já só temos meia vida, e não podemos voltar atrás.
Não sei se cheguei tarde demais, se tu escolheste o teu caminho demasiado cedo. Não sei se tudo o que temos é impossível, ou se simplesmente não temos força para mudar o que existe, e arriscarmos a nossa felicidade pelo nosso karma.
Sei que, nos teus olhos, não me pedes para que te peça para ficares aqui. E eu não encontrei forma de te o dizer.
Então tenho de te deixar ir. Deixar-te ser, o que és, longe de mim.
Obrigada por teres dado luz aos meus dias. Obrigada por todos os dias em que me fizeste sentir uma pessoa melhor, mais especial. Obrigada por me teres dado mais uns segundos de vida… daqueles que gosto.
Obrigada pelas surpresas, pelos girassóis, pelos bilhetes e cartas, pelas framboesas que dividimos, pela laranja, pela canela, pela maçã, pelo café, pelos cristais e caixas de música, pelos 10 minutos de meditação, pelos olhares que deixavas cair no meu corpo, pelo céu estrelado no meu escritório… por preferires o que tenho aqui dentro, do que a minha embalagem.
Obrigada por teres contrariado o destino e teres-me encontrado. Obrigada por insistires em me dizer olá, apesar da minha aparente indiferença. Desculpa se me deixei encontrar… acho que não era suposto sentirmos isto.
Obrigada por me mostrares que um amor destes, existe sim. Existe amor que transborda.
Espero que estejas a tomar a decisão certa. Espero que não passemos o resto da nossa vida a ter de nos traduzir para os outros, só porque eles não são capazes de nos ler, como nós tão bem o somos capazes de fazer.
Queria dizer-te mais, mas jurei que me bastaria com o simples e fácil, e deixaria de parte toda a confusão boa que nos une.
Espero que a próxima vida exista mesmo como eu te prometi. Estou a apostar a minha felicidade neste vida, pela que teremos na próxima.
Vou gostar de ti até ao fim dos dias que me faltam.
Vou amar-te até fechar os olhos pela última vez.
Um beijo.
Até lá, J*
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