sexta-feira, abril 10, 2020


Escrevi isto há mais de um mês. 
Nesse dia fazia todo o sentido. A vida doía-me. Não me preocupei com maiúsculas, com putativos erros ortográficos, com o uso da primeira pessoa do singular, da segunda, da terceira, com itálicos, com negritos, com pontuações ou acentos... Não era isso que me importava naquele dia. Só precisava de escrever, de gritar ao meu mundo que estava tudo errado, menos o amor dele. 
Tudo passou. 
Mais uma vez, como se um milagre se realizasse, tudo passou. 
A pandemia chegou, e todos começaram a perceber qual era o lugar deles, e voltaram ao sítio certo. Voltou a haver casa. Para todos. 
Hoje publico isto para que nunca me esqueça do mau que existe. Do mau que está atrás da porta. De como eu não sou de ferro e perco o norte.
Hoje publico isto porque me sinto bem. Porque a vida me sorri, de novo. Porque não me quero distrair, e esquecer-me que quando tudo estava mal, era o amor dele que me mantinha de pé.
Agora é o mundo lá fora que está em guerra, mas aqui dentro há paz de novo. 
Desejo sempre o mesmo: saúde e paz. 



«e de repente, sem aviso prévio, sinal, indício, premonição, todas as músicas se tornam insuportáveis. 
o que fazia companhia nas longas caminhadas diárias, passa a ser quase insuportável, porque fazem lembrar a vida que existia, e que, de repente, sem aviso prévio, sinal, indício, premonição, deixou de existir. 
todas as paixões apagaram-se, e deixaram de fazer o mínimo sentido. 
já não espero mensagens que me acendam fogos interiores, ou palavras que me façam sentir viva... porque, de repente, sem aviso prévio, sinal, indício, premonição, deixei de ter vontade de viver. 
constante continua a ser, apenas, o amor dele por mim. e é só esse amor que me dá uma razão para continuar a aguardar um futuro. um futuro sem desilusões, ilusões, discussões, rupturas. 
um futuro verdadeiro, onde as músicas voltem a fazer sentido, e a pele deixe de doer. 
doi-me a pele. doi-me o coração. doi-me a alma. e ele continua aqui, ao meu lado, a tentar manter-me em pé, quando o meu mundo quer desabar em cima dos meus ombros. 
dói tanto. dói tanto perder o norte, o sul... dói tanto que apetece morrer. apetece deixar de existir. evaporar-me. 
as músicas deixam de fazer sentido, não há maquilhagem que a tua pele segure mais do que 5 minutos, e toda a dor transborda dos teus poros. Os outros vêem em ti o desmoronamento, e dói ainda mais. 
quando é que as coisas se inverteram e deixaste de ter porto de abrigo? quando é que passaste a ser o suporte dos outros? quando é que a vida começou a doer-te? 
a minha vida doi-me. a minha existencia. a minha indefinição. o meu futuro interrompido. 
eles. 
eles doem-me na alma. 
eles. a minha razão de viver. eles são agora a razão da minha dor.»

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