Quando a minha avó morreu, o meu avô mudou de cidade. Vendeu a casa, e tudo o que tinham e decidiu começar de novo noutro sítio. Toda a gente pensava que seria um modo de manter a independência que sempre teve, mesmo no tempo em que partilhava a casa com a mãe dos seus filhos. Ele não reconhece isso, mas nem sempre foi um bom marido... pelo menos nunca soube estar completamente à altura do amor absoluto que a minha avó teve por ele. E um dia, sem nada o prever, a minha avó morreu, demasiado nova, com um suspiro. Chorou, fez o luto que a sociedade manda, e mudou-se. Não quis ficar connosco, era muito novo pra ficar preso numa casa que nem sequer era a dele, além de que sabia fazer tudo - aspirar, lavar roupa, passar a ferro... até fazer a bainha das calças.
E mudou de cidade. Egoísta, pensaram uns. Já tem outra, disseram outros. De facto, não sei. Apenas posso afirmar que nunca trouxe em férias ou nas festividades qualquer outra mulher, e que socialmente se mantem viúvo. Que palavra feia... viuvez. Enfim.
De há um tempo pra cá, assisto a intermináveis discursos dele sobre ela.
A tua avó era muito ciumenta. A tua avó deixava-se influenciar muito pela família dela, que não prestava pra nada, e portanto tive de puxá-la para o nosso lado. A tua avó era uma mulher muito séria e inteligente, até demais.. às vezes pensava demais, e punha-se a adivinhar-me amantes que nunca tive, juro que nunca tive. Estás tão linda, J., mas a tua avó tinha uma cintura tão fininha quando casei com ela, podia agarrar com as minhas duas mãos e dava-lhe a volta ao corpo todo, e como ficava linda naquele vestido de noiva. Quando ela começou a ficar doente, corri o mundo para a livrar daquele mal que tinha na perna, até a bruxos eu fui. Livrei a tua avó da morte por três vezes, uma delas quando a tua mãe nasceu... Se lá tivesse naquela hora, talvez a tivesse livrado de novo. A tua avó amava-me tanto, e nunca conheci mais nenhuma mulher como ela. Não contes a ninguém, pra não pensarem que estou a ficar maluco, mas às vezes, sinto o cheiro dela na minha casa... como é possível? Ela nunca lá esteve... Hoje podíamos ser tão felizes.
Ele conta-me estas coisas num tom baixo, quase de segredo. Parece que não quer que saibam que ele sente a falta dela. Ou tenta desculpar-se do que foi fazendo, ao mesmo tempo que se vai apercebendo de como ela era perfeita.
A minha mãe diz que herdei da minha avó o amor que ela tinha pelo meu avô, porque sou a única que nunca consegui ver-lhe os defeitos que todos apontam. Como ele disse, ela amava-o. Não sei se era recíproco, ou se simplesmente ele sabia que ela era a melhor mãe para os filhos dele. Mas ele sente a falta dela. Tarde demais, talvez. Ou não.
Hoje, quando o levava ao carro para que voltasse para a sua casa, ele disse... Não suporto esta cidade desde que a tua avó partiu, foi por isso que fugi daqui.
Eu acho que eu é que tenho razão, e que ele morre de saudades dela, e que está profundamente arrependido de não ter aproveitado melhor a sua companhia. E eles estão errados... O meu avô não é o homem frio e forte que eles julgam, e tem mais sensibilidade do que eles lhe atribuem.
Eu acho que eles se enganam quando dizem que herdei aquilo da minha avó. No fundo, eu sou como o meu avô. Talvez o que eu tenha herdado seja a mania de fugir de tudo. Do que desejo, do que quero, do que amo, e do que me faz sofrer. De tudo. Porque também fugi de muitos sitios depois de teres ido embora. Sempre tive medo de sentir a tua falta. Eu fujo das coisas porque tenho medo. Mas ponho a capa da pessoa mais fria e independente do mundo, para que ninguém saiba a cobarde que sou. E depois escrevo as coisas, baixinho, para que ninguém saiba... Sobretudo para que tu nunca venhas a saber. Que sinto a tua falta, mesmo que seja tarde demais. Talvez.
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