Ontem acabei mais uma etapa da
minha vida. Com um sucesso que jamais esperei ter. Em segundos, todo o
sacrifício de me sentar todos os dias ao computador, de escrever e apagar
aquela tese mil vezes, a luta com os caracteres, a preocupação em escrever correctamente
e bem, valeu a pena. Valeu a pena também ter-me levantado naquela manhã e me
ter obrigado a fazer a tese, mesmo que tu já não estivesses. E soube-me pela
vida perceber que aquilo não teve um dedo teu. Não teve nada teu. Tu não
estiveste nesta difícil caminhada, não estiveste ao meu lado quando eu quis
desistir, não me deste alento, nem coragem, nem força nem motivação naqueles
meses. Tu não estiveste. Tu estavas na outra vida que escolheste, naquela vida
pela qual trocaste tudo o que tínhamos, naquela vida em que me deixaste quando
eu mais precisava de ti. E de repente, não te sinto qualquer rancor por isso.
Nem a raiva que me assolava o espirito todos os dias que me sentava a fazer
correcções, a ler e reler e a tentar encontrar defeitos, quando percebia que tu
não estavas para me ajudar, mesmo sabendo que nunca te abandonei quando
precisaste. Perdoa-me as palavras, mas aquilo é mesmo só meu. É a prova para
mim que consigo fazer algo, de excelência, sem ti.
E estas palavras servem para que
saibas que, mesmo não precisando de ti, todos os dias em que construi aquela
obra, foste tu que estiveste no meu pensamento, ainda que por vezes pelas
razoes erradas.
E ontem, quando uma felicidade
que há muito não senti me invadiu a alma, procurei por ti em todos os rostos
com que me cruzei. Porque o homem que em tempos me amou o suficiente para
querer dividir a vida comigo, ontem, teria ficado imensamente babado e
orgulhoso e teria pensado aquilo que pensei: Nós temos tudo, mas mesmo tudo,
para ser as pessoas mais felizes deste mundo. Juntos.
Porque já o fomos. Mesmo quando
não tínhamos nada.
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