Tens o dom de surgir quando a minha vida está a tentar entrar na normalidade, ou seja, a entediar-me. Mas nota, talvez o tédio seja a solução para mim. Talvez não sentir problemas de maior ou habituar-me às circunstancias da vida, seja um sinal de maturidade. Enfim.
Afastei o tom sofrido ou rancoroso das nossas conversas. Ou pelo menos é essa a minha intenção. Não quero parecer demasiado magoada, nem quero transparecer a falta que me fazes.
Insistes em arranjar desculpas ou satisfações para o simples que aconteceu: nós perdemo-nos. nós deitámos fora o bom que tinhamos. nós fomos uns completos e perfeitos idiotas. Essa é a resposta que procuras. Eu já estive onde estás. Eu já tentei dar um nome ao que nos aconteceu, de forma a explicar porque é que tinha acabado se eu ainda sentia tudo isto por ti. E essa é a resposta: nós fomos uns perfeitos idiotas. De facto, até na idiotice fomos bons.
Perceber o papel que assumi na tua vida, arranjar teorias fantásticas onde eu apareço como entrave no desenvolvimento das coisas, explicar o porquê da tua alienação quando mudaste de cidade e desculpar a minha intransigência quando percebi que não sabias nada de mim... Eu já pensei sobre tudo isso.
Tu conheces-me... sabes o dom que tenho em racionalizar tudo... portanto já pensei sobre tudo isso.
Não vou negar o bom que foi tornar a ouvir-te dizer o que sentias por mim, ainda que me tenhas atribuido uma especie de escala ou coisa que o valha. Não vou negar que me tiraste o sono esta noite. Porque a tua voz ainda me incomoda. Ou talvez porque tenhas escolhido a nossa hora... Sim, aquela era a nossa hora. A hora em que falavamos antes de adormecer, em que te ouvia já a dormir do outro lado da linha ou vice-versa. Essa é a hora em que tudo me custa. A hora em que mais sinto falta de um carinho ou de uma palavra tua. Por isso, tentei que ligasses noutro dia ou noutra hora. Tu forçaste. Tinhas e precisavas de falar. E eu fiz um esforço sobrehumano para não me lavar em lágrimas durante a conversa. Não é fácil falar de nós no passado... posso parecer super decidida, mas tremo só de pensar. Tu não estavas à espera que eu baixasse a guarda, e eu comportei-me à altura.
Falou-se de tudo e de nada. Até que o sono apareceu e alguém teve de desligar.
A única pergunta que me fica é: Quanto tempo mais vamos assistir impávidos ao desenrolar da vida um do outro?
É que fomos idiotas. E somos idiotas. Quanto tempo mais vamos continuar a ser idiotas?
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