quarta-feira, agosto 19, 2009

Sabia a paixão. E canela.

"Ele entrou na sala, viu-a e ao mesmo tempo sentiu que não a podia ter. Cumprimentaram-se quase a medo, medo que o coração os denunciasse. Um beijo na face, um abraço emocionado e contudo, era mais do que isso, eram palavras contidas em amassos de folhas, guardadas a sete chaves, escondidas de todos. Pediam que tomasse o papel de actor e ao mesmo tempo de fingidor, como o poeta. Não era capaz de o fazer, nunca fora bom a fingir daquilo que o coração está cheio.
O abraço serviu para num relance sonoro poder sussurrar:
- Quero-te.
As palavras ficaram contidas mal os braços se largaram: era um segredo demasiado doloroso para os outros, mas pior ainda para eles. Ficaram limitados a mãos no bolsos enquanto os olhares se descobriam. Ver os lábios e eles não se encontrarem, querer tê-la nos braços e não poder. A impossibilidade matava-os de vontade, desejo de se tocarem. Lembravam-se dos jogos que fizeram até se envolverem emocionalmente. Brincavam com o fogo, como se ele lhes fosse essencial. O desejo era o mesmo e nunca o tinham revelado por pudor ou vergonha. As palavras atropelavam-se como se cuspissem o que lhes havia enchido o coração. Estava tão cheio, tão completo e belo que o sentiam na boca. O coração a mil, o cérebro também.
Novamente a mil, agora frente a frente. O coração nas mãos, as mãos no coração. Os lábios que se mordiam, as palavras que fingiam. O desejo que crescia, o sorriso que se inventava. O quererem tocar-se, os corpos que se riam. As palavras ficaram escondidas para sempre, pedia-se que se conseguisse, que não se tentasse. O medo de tentar fora demasiado, talvez se tivesse deitado um bocadinho de Felicidade fora. Felicidade temporária, se calhar. Mas tinha o mesmo nome e cheirava ao mesmo: Felicidade. Tinha uns travos a paixão também. E canela. A vontade de arriscar era muita, porque o Amor também o era. «Não podemos», dizia. E não podiam. Talvez um dia se pensassem que também eles tinham direito a alguma coisa e pensassem também em si. Sonhava-se com o beijo trapalhão e todos os outros que se esgotariam num abraço.
Não chorou nunca. Nem mais. O que sentia era demasiado forte. Cerrou os dentes.
- O nosso problema sempre foram as palavras.
E partiu. Partiram. Quebraram-se os dois."
"Tiago Ramos - Simplicidade Complexa"
Quebrámos os dois

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