O desamor, pela minha experiência e observância - pelas minhas anotações num caderninho palerma que comprei numa loja de produtos étnicos - começa por ser uma massa informe, cuja forma final, o potencial desamado pressente, mas não aceita; e vai-lhe tocando, com trejeitos de escultor, na esperança de a desviar daí para outra coisa qualquer - assim como uma jarrinha inofensiva ou um bibelô murcho. O tempo não ajuda porque coze este tipo de massas, contribuindo para a sua solidificação. Além do mais - isto segundo a minha experiência, a minha observância pessoal e as minhas anotações no caderninho palerma, claro, claro: longe de mim querer estar para aqui a ditar leis sobre o assunto -, a massa do desamor tem uma filha-da-puta de uma espécie de memória intrínseca da forma definitiva que deve tomar, que a faz caminhar para ela com tanta convicção, que o desamado, que ainda não o é, não se livrará de o ser, por mais que a tente moldar com mãos subtis ou, num estádio mais avançado de solidificação, desbastar à martelada.
António Gregório
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