Na realidade, tenho medo.
Medo que apareças num sopro único, na esquina de uma rua qualquer, mesmo a virar e que choques comigo novamente.
Medo que as minhas mãos reajam como mãos e que insistam em tocar-te nos cabelos encaracolados, ali mesmo numa esquina e que a minha boca aja como boca e te peça para ires tomar um café comigo.
Tenho medo de perceber que ainda gosto de ti, que afinal sou um mentiroso e que tudo o que não se passou entre nós foi apenas por capricho, necessidade de afirmação e independência.
Tenho medo, lá no fundo, de me atrapalhar com as palavras, enrolar-me num substantivo qualquer e trocar os grupos nominais e verbais, dizer tudo o que não quero e acabar por perceber que sempre o desejei.
Tenho medo que esquecer-me de ti tenha sido em vão, que um esforço inútil tenha ocupado a minha mente sem qualquer utilidade e que ao te encontrar a chama se reacenda em mim.
Tenho medo de te encontrar novamente, que te veja num bar, eu a sair, tu a entrares, sem tempo de reagir, sem tempo de chamar por ti, de te deixar um número ou qualquer outra coisa que te faça recordar de mim.
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