A verdade e que não há nada mais cruel do que um amor-perfeito. Passamos vidas inteiras a arranjar suspeitos, a confrontar testemunhas. Toda a gente sabe que ele aconteceu, mas ninguém o viu. Ninguém sabe descrever-lhe o rosto. Ataca sobretudo em horas ou pessoas de plena distracção, à revelia dessa confortável invenção humana a que chamamos razão. E ataca com escândalo. Perturba a serena ordem deste mundo, que é a de as pessoas se atropelarem diariamente a alta velocidade, por mais um automóvel, uma assoalhada ou uma promoção. À luz do meu amor por ti as paixões dos outros surgiam tristes.
A paixão agita a economia do mundo; é a única falência de sucesso. Quanto mais se perde, mais se ganha. «Não te posso dar nada», dizíamos um ao outro, depois de já termos dado tudo. Ladrão nenhum pode roubar-nos a dor de não podermos incarnar, fora do tempo e do espaço, nessa outra metade de nós. Os estudiosos abrem chavetas e arrumam este milagre intratável como uma gripe do coração, violenta e passageira na margem oposta do amor, pacato, laborioso, edificante, claro, em permanente construção.
Contigo eu não precisava de construir nada. Iria contigo para a guerra, para o exílio, largando tudo o que me era querido sem o mínimo esforço…
To be continued…
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